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E o galo cantou


Em noites gélidas e solitárias, ele empoleira-se e solta o seu mais alto tenor. É um canto que atinge a alma, penetra nos lugares mais ocultos do nosso ser. Há sempre um galo que canta e nos faz lembrar do nosso passado. O que queremos esquecer e que fosse apagado completamente é trazido a nossa memória à medida que o som adentra aos nossos ouvidos.


Momentos, traumas, palavras, atitudes, dias em que desprezamos para aquele que tanto fez por nós. Lágrimas de remorso são inevitáveis. Sentimento de culpa e de repulsa a nós mesmos. Se pudéssemos voltar no tempo faríamos totalmente diferente. Mas, o tempo não volta e o galo continua a cantar.

A cantoria lembrava a Pedro certa noite. Palavras de fidelidade foram substituídas por de negação. A jura de honrar ao Mestre até o fim foi quebrada em três momentos. Tudo o que foi vivido em anos, foi esquecido em apenas uma noite. “Eu não conheço este homem”. Palavras e atitudes tão fortes de um dos discípulos mais próximos de Cristo.

E o galo canta, talvez em um tom irônico, mas, alto o suficiente para que Pedro ouça e para que a realidade desponte. O choro amargo de um coração arrependido é a consequência de quem toma consciência do que fez. Os dias posteriores seriam diferentes. Como olhar para cruz e não se sentir culpado? Nunca mais aquele discípulo seria o mesmo.

Simples gestos, pequenas atitudes e poucas palavras são suficientes para nos sentirmos indignos de ter o amor de Cristo. Somos nós quem “rompemos” com o relacionamento, quem diz “não” e vira as costas. Quantos “não Te conheço!” o Mestre não ouve da nossa boca? E os dias seguirão e o galo continuará a cantar nos lembrando do que fizemos e do que escolhemos.

Não sabemos quantos dias se passaram para Pedro se encontrar com Cristo às margens do mar da Galiléia. Por quantas noites seguidas ele teve de ouvir a mesma melodia? Por quantas vezes, em cada noite, seu passado foi remoído a todo canto entoado? Naquela madrugada em alto mar, Pedro não ouviu nenhum galo cantar, mas o Mestre o esperava na praia.

Peixe e pães assados, essa era a refeição descrita nas escrituras para aquela manhã. Mas, Cristo resolveu “fritar” um certo galo também. Havia uma restauração para Pedro precedida de um encontro, de uma confissão, de um perdão. Precedida de uma nova oportunidade para demonstrar ao Mestre o quanto ele o amava.

Para cada filho arrependido Ele prepara um encontro às margens da praia da vida. As mãos furadas são especialistas em curar corações feridos. Não importa o seu passado assombroso. Ele prepara um futuro brilhante. Ele não perguntará o porquê de certas atitudes ou decisões. Ele simplesmente quer saber: “Você me ama?”. 

Depois disto, podes dizer: Canta galo! Já não me incomodo mais.

*Baseado em: Lucas 22. 33, 34, 54-60; João 21.1-17.


(Ary Gabriel)

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