Pular para o conteúdo principal

O "fio da caridade"


Conta-se que um homem, pecador, egoísta, um dia precipitou-se num abismo e foi ter ao fundo de um fosso escuro e profundo. Assustado, mexeu-se, procurou saída, não encontrou. Tentou subir pelas encostas, mas as paredes, muito lodosas, não davam firmeza. Bradava por socorro e tinha por resposta tão só o eco de suas palavras. Desesperado, lembrou-se de Deus e, pela primeira vez na vida, dobrou os joelhos em terra, em prece fervorosa, deprecando a misericórdia do Senhor... 

Abriu os olhos, banhado em lágrimas, e parecia estar tudo do mesmo jeito. Quando já ia descoroçoando, conseguiu divisar um tênue fio de aranha, que descia do alto, até onde ele estava. Mirando-o, uma voz lhe disse no adito do ser: - Por que não se agarra nesse fio, quem sabe por ele poderá se salvar? Espantado e duvidoso, não tendo, todavia, opção, nosso personagem resolve tentar. Segurou o fio e, de fato, foi subindo por ele, subindo, subindo devagarinho.

Quando já estava quase alcançando a borda do fosso, olhou para baixo e viu que não estava sozinho: dois outros perdidos do abismo subiam também, agarrados no mesmo fio. O homem deu-se pressa em enxotá-los com o pé, bradando: - Soltem isso aí, seus atrevidos, não vêem que não dá para mais de um? Os outros dois caíram, mas logo em seguida o fio se rompeu e ele caiu também. Novamente no fundo do fosso e sem recursos, a voz se fez ouvir de novo.
- Se Você tivesse deixado os outros dois subirem também, teriam todos se salvado, mas o seu egoísmo pesou muito e o fio não resistiu...

O apólogo expressa bem o que é a caridade em nossa vida. Primeiramente, a sua delicada simbologia nos ensina que as coisas de Deus são mesmo assim: os mais frágeis recursos (teia de aranha), com Sua Graça, se tornam os mais poderosos. Em seguida, vemos que a lei da caridade segue, muitas vezes, uma lógica oposta à nossa e a própria lei física da matéria: quanto mais peso (da ajuda que se presta a outrem), tanto mais leve (dos cuidados só consigo próprio), menor capacidade.

Assim acontece com as pessoas que, embora pobres de recursos materiais ou intelectuais, enfermas ou aparentemente incapazes, se animadas do sentimento do Bem, exercendo a solidariedade humana, vão conseguindo superar os maiores obstáculos e avançam, conduzindo outros no caminho do socorro e do aprendizado. Mas aqueles que, preocupados, acreditam não dispor de meios para ajudar a ninguém, não encontram também solução nem para os próprios males. 

(Lenda Oriental)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

QUILOMBOS E REVOLTAS ESCRAVAS NO BRASIL

A formação de grupos de escravos se deu em toda parte do Novo Mundo onde houve escravidão, os quilombos variavam de tamanho, lugar e importância, o quilombo dos Palmares sobrepôs por sua fama, devido sua resistência os números dos que habitaram lá foi consideravelmente aumentado para justificar as derrotas, um reduto onde negros de várias etnias se reuniram, onde havia a prática comércio, uma hierarquia social de guerra. Com o seu fim, jamais houve no Brasil um quilombo tão grande como Palmares. Muitos dos quilombos não eram tão longe das cidades e das grandes fazendas onde mantinham relações comerciais e de parentesco, muitos escravos se abrigavam em propriedades de plantio, ou eram seduzidos a fugir para formar pequenos quilombos para plantação, principalmente de mandioca onde atravessadores compravam o produto por um preço abaixo do mercado, muito deles assaltavam viajantes, seqüestravam, caçavam, plantavam, colhiam ou trabalhavam em minas para depois trocarem por di…

Como um arco íris

Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças. Eclesiastes 9.10
Se devemos viver separados do mundo, como va­mos executar corretamente as tarefas seculares, comuns da vida, uma vez que os homens só fazem direito aquilo que fazem com vontade? Se nosso coração está repleto de coisas celestiais, como obedeceremos a este outro mandamento igualmente divino: "Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças"? Eles se harmonizam perfeitamente. O homem que se coloca entre o mundo celestial e o terreno está liga­do a ambos; ele não se parece com a flor, que brota do pó e para lá retorna; nem com a estrela, que brilhando muito longe da esfera terrena, pertence totalmente aos céus. Em vez disso, nosso coração pode ser ligado ao arco-íris que, alçando-se ao céu mas repousando na ter­ra, relaciona-se tanto com o solo dos vales quanto com as nuvens do céu.
Guthrie

Difícil ser resiliente

Tem horas que a alma é dominada pela preocupação, uma carga de responsabilidade pesa sobre os ombros, dando demonstrações que nunca vai findar. Sendo péssima a sensação de perca do controle das reações. Quando caímos em si, já escorregou pelas mãos toda a razão.
Com feroz força todo arrependimento do mundo toma conta do pensamento, e os questionamentos não cessam acerca do que era para ser feito e o que deveria deixar de fazer. No ambiente envolta os objetos fazem barulhos desconcertantes com o único objetivo de irritar, tirar o foco, retirar um pouco de sua paciência. Paciência, sim, é o que mais precisamos e menos temos. O corpo reage o que sente a alma, dores aparecem, a cabeça parece que vai explodir e o estômago fica embrulhado, a pele engrossa e rejeita tudo que lhe toca. Nada coopera para que alguma coisa melhore. Olhamos para trás vemos só arrependimentos, erguemos o olhar para o futuro apenas dúvidas e incertezas, e no presente o sentimento é inutilidade, ignorância, sem direção …