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O NOVO MUNDO ENTRE DEUS E O DIABO

      O texto de Laura de Melo e Souza não é um dos mais simplórios, sua argumentação bastante abrangente nos leva a tecer muito bem uma conjuntura histórica.
      Das viagens imaginárias as viagens reais, através de relatos de outros historiadores e materiais escritos na época Laura nos traz a uma abordagem de como o europeu não soube distinguir na descoberta da América a diferença do que se passava em sua mente e o que era real. As lendas, fantasias em torno do Atlântico foram tantas que permearam a cabeça do europeu. A fascinação do Índico foi traspassada para o oceano das tempestades, dos temores dos marinheiros o Atlântico.
      A descoberta do pau-brasil com sua cor avermelhada fez nascer um Brasil com a estigma do demônio, sabendo que a cor se relacionava com o mal. Muitos dos atos durante as navegações estavam ligados ao miraculoso e sobrenatural. Não se pode negar que as expedições marítimas tiveram forte influência do imaginário europeu.
Descoberto Brasil ocupara no imaginário português a posição anterior de terras longínquas e misteriosas, conforme passara os estágios de colonização sua aparência com Portugal cada vez mais se solidificou. O mito do Paraíso terrestre triunfou ante ao indígena, ao escravo africano, a feitiçaria, ao canibalismo, imensas chuvas, insentos, calor intenso. Os primeiros escritos em relação ao Brasil revelam as terras como sendo um paraíso, enaltecendo a natureza, uma edenização. Por volta do século XVIII houve um processo de detração, escritos de difamação da terra, dos aspectos negativos do clima, dos bichos tanto quanto foram açoitados pelas palavras.
      Conquista do novo mundo esteve todo tempo entrelaçada com a fé. A dilatação da fé, colonização e fortalecimento do império sempre aparecem associados. Cabia ao colono descobrir riquezas da terra e ainda enriquecer os céus com almas. Muitas descobertas eram referendadas pela ação divina, como também as atrocidades eram justificadas através da salvação a povos sem Deus, eles eram simples soldados de Cristo.
       A fé dava forças pra enfrentar o que pregava a literatura européia, onde em terras longínquas habitavam monstros, raças com deformidade, homens-bestas, monstros marinhos, sereias, frutífera era a obra fictícia. O contraste com os indígenas bem feitos fisicamente e com suas sociedades organizadas, desmistificou velhas lendas. A presença indígena foi incorporada ao imaginário europeu, a percepção dos índios era tida como outra humanidade, Gandavo fala “multidão de bárbaro gentio que semeou a natureza por toda terra do Brasil”. Os índios foram chamados de fétidos, grosseiros, canalhas, sem fé, lei, vivendo como bestas irracionais, ignorando o fato dos índios não terem tanto pêlo, como eterno pecadores, incestuosos, polígamos, canibais, preguiçosos, os viam como demônios. A violência empreendida por vários grupos indígenas que na sua maioria era feita em forma de revidação, era retratada como canibalismo e muita selvageria.
      Padres viam não só os habitantes, mas toda terra como reino do demônio, diziam que tais saíram da Europa cristã e vieram a reinar no hemisfério sul em terras tropicais, qualquer acontecimento por mínimo que fugisse do normal era relacionado ao diabo, doenças, tempestades, chuvas torrenciais, curandeiros indígenas e de escravos africanos eram tidos como possuidores do demônio. A doutrina do purgatório foi muito utilizada, devido aqui ser a terra do pecado, por isso tanto a catequese foi difundida, a fim de purificar as almas. O Brasil era tido como o purgatório dos brancos, muitos foram enviados por meio do degredo para as terras tupiniquins para se redimir de seus crimes e pecados.

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