Vai em Paz... Não peques mais

Meus olhos se abriram ao raiar do sol.
Para muitos, um dia comum, mas eu sabia onde estava e o que tinha feito.
Fui atraída por um desejo voraz. Meus ouvidos aceitaram palavras tão graciosas.
Não resisti. Cedi. A companhia da última noite partiu, levando consigo a minha paz.
Percebi a ilusão. Estava só. Eu e o meu pecado.

Minha ausência seria sentida. A notícia logo se espalharia.
O pensamento voou. Lembrei-me dos dias em que sentava ao lado do pai e lia as escrituras.
Tardes em que decorava o decálogo, noites em que olhava para o céu e pedia o Messias.
Fui instruída. Conhecia a Lei. Sabia qual seria o meu fim.
Um estrondo na porta me fez voltar à realidade. 

Escribas... Fariseus... Fui tomada a força, sem direito a despedidas.
Antes de meu rosto ceder pude ver uma multidão enraivada. Alguns sorriam, mas com pedras nas mãos.
Desconhecidos... Amigos... Familiares...
Talvez eles estivessem certos. Era a nossa tradição. Era a lei Mosaica.
A escolha, agora arrependida, tinha sido minha. Consequências inevitáveis que naquela noite não pude prever.

Conduzida brutalmente por um caminho sem volta. Sob os meus pés as empoeiradas ruas de Jerusalém.
Lágrimas eram inevitáveis ao ouvir palavras condenatórias.
Onde seria o meu martírio? Para onde me levariam?
Entre os insultos ouvi alguém replicar: “- O que será que Ele vai dizer? Deveríamos ter pensado nisto antes. Ele não terá palavras”.
Por um momento minha mente quis imaginar: De quem seria que eles tanto falavam? Mas aqueles conhecidos degraus romperam a minha alma.
Apedrejada. No Templo.

Jogada velozmente ao chão, não tive coragem de olhar para aquele sentado a minha frente. Talvez fosse o meu algoz. 
Inerte, esperava o momento em que meu corpo tombaria sem vida sobre aquele grande pátio.
Horrenda angústia me dominava. O Presságio da morte era atordoador.
Alguém pediu silêncio à multidão que estava aos gritos.
Minha acusação foi anunciada a alguém. Seu nome pude ouvir: Jesus. 

Ele? Meu juiz? Seus milagres eram contados a volta da mesa, mas nunca o tinha visto.
Uns diziam que era Ele o Messias.
Se for Ele mesmo, o que poderia fazer por mim? Era a Lei. Era o meu fim. A morte.
Não tive forças para pedir clemência. Ele não se importaria. A repugnância dos meus atos me fez sucumbir, desistir de mim.
A multidão inquieta ansiava e insistia por uma resposta. 
Ele calmamente os deu.

A cada pedra deixada ao chão, meu coração era tomado por interrogações. 

O que seria de mim?
-Mulher. 

Sua doce e forte voz me fez levantar meus olhos. 
Pude ver seu sereno rosto. Seu olhar me tirou as dúvidas. 
Ele era o Messias, por quem eu tanto orei.
-Onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? 
Percebi que estávamos sós... Ele... Eu... Pedras... 
-Ninguém, Senhor – com a voz embargada respondi – Ninguém. 

Suas palavras inundaram meu coração. Paz – pude sentir novamente.
Sua sentença foi perdão... Misericórdia... Graça...
Mesmo sem pedir... Sem merecer... Ele não me condenou.
Ao descer as escadarias, pela primeira vez naquele dia sorri.
Algo me transbordava, me enchia de alegria, inundava meu interior.
Pelas mesmas ruas empoeiradas voltei... Pronta a cumprir o que me pedira aquele que salvou a minha vida. Aquele que me amou. O Messias Jesus.


Baseado em João 8.1-11

(Ary Gabriel)

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